09/07/2018 - O futuro aplicado aos restaurantes brasileiros

 

O desenvolvimento exponencial da capacidade de armazenamento, produção e transmissão de dados provocam uma constante mudança na forma como percebemos tudo. A agilidade na gestão e principalmente a capacidade/habilidade de antever/antecipar os problemas /oportunidades/tendências darão maior chance de sucesso aos empreendedores.
Entender as tendências é ponto chave para desenvolver a agilidade e a capacidade de antecipação (antes que ocorram e com noção de quando podem/devem ocorrer), portanto separar o que “deve acontecer” do que “pode acontecer” é a base deste entendimento.
Blockchain pode ser descrito como uma Hard Trend, ou não…

O mesmo pode ser diferente
De alguma forma, as “tendências inevitáveis” – Hard Trends, parecem ser mais globais; ainda desta forma, a inserção destas informações na construção de uma estratégia ou um plano de negócios, sem considerar algumas condições regionais/locais, pode levar a uma distorção da realidade e comprometer resultados. Assim também pode acontecer com as Soft Trends (possíveis de ocorrer) sem considerar as diferenças culturais econômicas ou políticas de Estado/Governo.
Pensando em paralelo, para o Brasil, em termos de Hard Trends:
1)Dados demográficos/Demografia – Estudar as localidades/locais/localizações em relação aos seus habitantes/clientes seu perfil de idade, socioeconômico e mesmo étnico/cultural continua sendo obrigatório para previsão/estratégia de negócios. No entanto, a população brasileira vem envelhecendo e a taxa de natalidade continua caindo, a despeito do SUS, a medicina tem feito a média da expectativa do brasileiro de vida aumentar.
A alimentação adequada e as crescentes informações/conhecimentos sobre nutrição, bem como as mudanças necessárias de dieta variando com a faixa etária e/ou restrições advindas do envelhecimento/descoberta/adequação/moda trarão novos produtos e maneiras de consumo. Também não é possível ignorar as novas gerações de consumidores com suas próprias exigências/necessidades/vontades. O que gerará (ou vem gerando) novos produtos e serviços.
2)Regulações Governamentais – Vivemos em um Brasil de falta de qualidade no retorno dos impostos ao cidadão/empresas em todas as instâncias (Municipal, Estadual e Federal), desafiamos a Teoria Curva de Laffer, aumentando a carga tributária e gerando custos com cumprimento de normas muitas vezes absurdas.
A transferência das obrigações do Estado para o setor privado é corriqueira e mesmo com as recentes reformas trabalhistas, os custos com uma “mão-de-obra” necessária (porém de baixa produtividade) torna nossa competitividade baixa e frágeis quanto a instabilidades geradas por inseguranças institucionais (tributárias, jurídicas e políticas) .
Tal qual no resto do planeta, o apetite da máquina governamental é sempre grande, mas em uma Sociedade como a nossa ele é descontrolado. Portanto, esta Hard Trend (sem trocadilhos) é mais “hard” no Brasil, pelo desequilíbrio das contas públicas a serem quitadas a partir do aumento da arrecadação (sem cortes nas despesas do próprio Estado).
Dentre as formas mais significativas de repasse de contas em aberto do Estado brasileiro, estão as “tarifas públicas/controladas pelo Estado”: energia elétrica, água/esgoto, gás/gasolina e afins, que afetam de forma violenta o preço final de um produto.
3)Inovações Tecnológicas – Embora falar em robotização/automação de produção possa parecer algo de ficção científica para restaurantes e bares ( ou desenho animado – para os mais antigos, algo como os Jetson), existe muita tecnologia que se tornará acessível mesmo no Brasil. A disparada dos salários de funcionários do segmento nos Estados Unidos viabilizou o investimento no desenvolvimento de soluções robóticas/Inteligência artificial para produção, serviço, controles, limpeza e segurança de Empresas de alimentação fora do lar. Com o tempo ocorrerá o mesmo que ocorreu com outras “gadgets” e seu custo se tornará mais viável. É improvável que máquinas, robôs e computadores “quase humanos” substituam todo staff, mas uma mudança de era está ocorrendo. Processos deverão ser revistos para encaixe destes novos atores autômatos /tecnológicos do mercado.


Você pode até ser contra

Bem, de alguma forma estas Hard Trends vistas genericamente trariam uma linha estratégica em uma orientação voltada para:

Desenvolvimento constante de novos produtos que se encaixem nos perfis de população/público alvo;
Busca de alternativa/eficiência energética; bem como modelos tributário/fiscal de menor custo;
Revisão de modelos de produção, serviços, controles, limpeza e segurança levando em conta avanços tecnológicos.

Parece pouco, mas podem nortear mudanças ou formação de conceito.
Também diz muito a respeito da transformação necessária na forma como vendemos, comercializamos, comunicamos, colaboramos, inovamos, treinamos e educamos que ocorrerá nos próximos anos.
Ignorar Hard Trends tem muito a vem com Polaroid, Kodak, Motorola, GM ou Blockbuster, que de algum modo “selou” seus destinos.


Identificar soft trends – O desafio
Parece que o conceito cíclico da História proporciona muitas ilusões em nossa sociedade inundada por tantas revoluções tecnológicas.
Soft Trends têm boa chance de ocorrer, mas é possível que muitos fatores a revertam, cancelem ou retardem sua “ocorrência”. Ou seja: entramos em um universo de apostas ou ações da bolsa (com um bom argumento/estudo de histórico).
Seria até mesmo possível indexar suas possibilidades em virtude de cruzamento de vários dados do passado e presente para interpretação do futuro, mas ainda assim teríamos um exercício com um risco de erro razoavelmente grande
Dissemos no texto anterior que taxa de obesidade entre os jovens norte-americanos cresceu, ainda que em velocidade menor, mesmo com fortunas gastas em campanhas e etc.
Seria a influência das propagandas de fast food, falta de tempo nas cozinhas em virtude de mudanças no modelo de família / convivência , mais oferta de produtos mais “energéticos” ? Imputaríamos ao fato em si um caráter “de impossível reversão?
Poderíamos dizer que a qualidade das campanhas americanas era ruim ou não atingia seu público alvo, ou as empresas gigantes de alimentos teriam boicotado esta campanha com seu poderoso lobby, “imputando a falta de capacidade de solução” eternizando o problema?
O aumento de peso da população está ocorrendo também no Brasil (em que temos poucas campanhas para educação alimentar). Aliás no Brasil, recente pesquisa do Ministério da Saúde indica que o número de jovens obesos dobrou na última década.
Portanto, parece razoável que continuar vendendo fast food ou guloseimas seja um bom negócio na alimentação fora do lar do Brasil (pelo menos por enquanto).
Este tipo de conclusão poderia ser modificada se (por exemplo) tivéssemos um grande investimento em orientação nutricional e fornecimento de refeições balanceadas (e gostosas, po que é possível) nas escolas.
Note bem, de alguma forma assumi no trecho acima a possibilidade de mudança que criaria outra tendência (Soft) no mercado (mesmo não sendo verdade).
Identificar oportunidades a partir de Soft Trends é bem mais complexo, pois estas tendências são menos plausíveis/identificáveis porque podem mascarar outros dados, estarem sujeitas a ciclotimia de mercado/comportamentos/moda ou interesses de grupos/instituições.
Soft Trends vão ter com frequência o “Pelo menos por enquanto” em sua leitura analítica e a habilidade de antecipação e agilidade com execução de mudanças norteadas pela conjunção de Soft e Hard Trends deve levar as empresas ao próximo nível.


Texto: Marco Amatti

Marco Amatti é CEO da Mapa Assessoria, especializada em negócios em alimentação fora do lar, e um membro profissional da FCSI no Brasil.